O gosto pelo wiskhey é uma das minhas características. Depois de uma adolescência em que a minha relação com  dita bebida era, para mal dos meus pecados, afectada por coca-colas, sumos e afins (que estraga tanto o Whisky como o Fernando Santos estraga o juízo aos adeptos do Benfica), aprendi a beber como deve ser. E hoje posso confessar-me um apaixonado por aquela bebida sobre a qual James Elliot disse ser “tão boa como uma noite de paixão com duas virgens”.

 

Bom, o nosso Elliot viveu em 1845 e se por cá andasse ainda ia perceber a barbaridade que disse, mas eram outros tempos. Agora ter duas virgens na mesma noite é como encontrar bom senso na cabeça da Elsa Raposo ou droga numa esquadra da PSP (bom, se calhar…). Aliás, a noite que ele previu é tão provável no nosso Portugal como um norte-americano não ter o colesterol alto. Mas abreviando razões, a paixão pelo whisky é antiga e bem construída. Por tudo isto estou habituado a uma pergunta fatídica.

 

Ela aparece sempre, inevitável como a piada indelicada do amigo bêbado que nos deixa encavacados à frente dos restantes presentes, a questão “quantas pedras?” é uma constante para o apreciador deste líquido. Quer seja um brasileiro numa pizzaria fina ou um alentejano castiço chamado Quim Zé numa tasca da Amadora, ela vai aparecer… E atenção, se a pergunta for feita numa das ruelas do Bairro Alto, aí já é o Jaimão a vender haxe. De qualquer forma, a resposta que tem inquietado muita gente é três pedras.

 

Fora alguns membros da velha guarda, que gostam do whisky puro, sem gelo, a traçar o esófago, todos os restantes necessitam de gelo para arrefecer o conteúdo do copo, “adormecendo” o palato, centro sensorial da boca e evitando assim aquelas caretas características, que aqui entre nós são tão masculinas como as crónicas do Carlos Castro na TV Mais ou os ‘sketches’ do Herman José e Joaquim Monchique na SIC. Logo, é necessário ter gelo no copo.

 

Uma pedra não arrefece suficientemente a bebida, com duas a coisa melhora, mas é a terceira que não deixa qualquer tipo de dúvidas. Tem muito mais glamour e não se corre o risco de ter uma bebida morna junto à base e gelada no topo, onde o gelo boia.

 

Para além disso, de acordo com “The elder brother of scotch”, bíblia dos apreciadores de whisky, as pedras servem também para “celebrar”, com as pedras a “criarem uma harmonia florescente que acompanha o momento”. Uma outra corrente sugere que a tradição das três pedras aparece durante as fases prévias das grandes batalhas britânicas, quando em alturas de desafogo os guerreiros bebiam um cálice de whisky, colocando três pedras (não de gelo, mas do chão), de modo a ter protecção da Santíssima Trindade. As pedras recolhidas do local onde se celebrava entravam em contacto com o álcool e libertavam elementos com propriedades químicas que deixavam os guerreiros com a “pica toda” para lutar, estando por isso sobre esta base o lado viril da bebida em causa.

 

De qualquer modo, mais importante que a história é o presente e se quer deixar boa impressão à mesa, aposte sempre nas três pedras.

Dica tranquila: Em algumas zonas do país, a água da torneira apresenta altos valores de alcalinidade ou acidez, que necessariamente alteram as propriedades da bebida. Ora como o gelo é normalmente feito a a partir da água da torneira, convém ter atenção. Num copo de coca-cola, se calhar o problema não é muito grande, mas quando se trata de um bom whisky, a coisa muda de figura. Aconselho por isso que deixe de parte uma ‘couvette’ no congelador para fazer gelo com água engarrafada para saborear melhor o seu whisky. Também pode optar por sacos de gelo já preparados, como é o caso dos da Luso, à venda nos supermercados. Vai ver que vale a pena.